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Alphonso Davies: do desespero como refugiado na África à glória em sua chegada ao Bayern

Por Taynã Melo
@tainandemelo

Com apenas 17 anos de idade, jogador deixa MLS no fim deste ano para se tornar uma das grandes promessas na Europa; superação após batalha pela sobrevivência resume sua trajetória de vida

O Brasil lida timidamente com a questão dos refugiados na atualidade. Mas o país sempre foi habitado por pessoas de outras nações. A colonização pelos portugueses foi apenas um início, além da imigração italiana, japonesa e alemã durante as duas Grandes Guerras. Porém, a vinda ao território "abençoado por Deus e bonito por natureza" se tornou uma questão de vida ou morte para pessoas de Cuba, do Haiti, de Senegal e, ultimamente, da Venezuela.

Sair de maneira desesperada e com um monte de incertezas não supera a esperança de ter melhores dias. Trágica e infelizmente, muitos morrem no meio do caminho. Mas alguns conseguem ser heróis e vencer mais uma árdua batalha.


Essa situação é cada vez mais evidenciada no futebol, principalmente nos países com os campeonatos mais fortes da Europa. França, Espanha, Alemanha, Itália e Inglaterra contam com diversos atletas nascidos ou com ascendência de nações africanas, asiáticas e americanas.

Um dos exemplos mais recentes de história de sobrevivência, de sucesso após inúmeros traumas e das bem-feitorias que o futebol pode proporcionar é Alphonso Davies. Com apenas 17 anos de idade, o jogador do Vancouver Whitecaps, da MLS (Major League Soccer), assinou contrato com o Bayern de Munique, que desembolsou 10 milhões de euros, o maior investimento de um clube para adquirir um jogador que atua na liga norte-americana de futebol.

Primeiros anos dramáticos e nova vida no Canadá


Davies nasceu em 2 de novembro de 2000, em um campo de refugiados na cidade de Buduburam, em Gana. Seus pais viviam no lugar por terem fugido da assustadora guerra civil na Libéria. As dificuldades eram tamanhas. O acesso à água potável e à comida eram sofríveis. A cada instante, a trava pela sobrevivência.

“Foi difícil viver porque a única maneira de sobreviver às vezes é ter que carregar armas. Nós não tínhamos interesse em atirar. Então, decidimos simplesmente fugir de lá. Eles têm um programa chamado reassentamento e disseram ‘você tem que preencher um formulário para ir ao Canadá’. Nós passamos pela entrevista e chegamos aqui”, explicou  Debeah, pai de Alphonso.
A imigração aconteceu quando Davies tinha cinco anos de idade. Junto com sua família, se estabeleceram em Edmonton. Apesar de não viver em conflitos armados, a batalha era para manter um padrão de vida suficiente para minimizar as dificuldades vividas anteriormente. Enquanto os pais, Debeah e Victoria, trabalhavam longas horas, Alphonso cuidava de seus irmãos mais novos e se destacava na escola que passou a frequentar.

“Nosso pequeno Alphonso era apenas uma daquelas crianças que tinham um sorriso permanente no rosto, sempre dançando nos corredores. Ele é um talento natural. Ele era o garoto para qualquer coisa”, disse Melissa Guzzo, professora do 6º ano na Escola Católica Madre Teresa.

A visão perspicaz de Guzzo resultou em um contato dela com Tim Adams, fundador da Free Footie - liga formada para promover o esporte para crianças com pouco ou nenhum recurso. Rapidamente foi perceptível o diferencial de Davies em relação a seus jovens colegas.

“Eu vi seu primeiro toque na bola e soube imediatamente que esse garoto era um presente para o jogo. Outras crianças que eu vi tiveram esse nível atlético. Mas ele tinha a mente. Era muito mais do que um cara que poderia chutar a bola para as redes. Havia algo especial. Ele tinha rapidez e velocidade com a posse de bola. Eu sabia que era algo especial nessa idade. Perguntei a ele quais eram seus planos e ele me disse que gostaria de jogar na equipe no próximo ano. Ficamos encantados. Ele se encaixou imediatamente”, falou Adams.

Potencial despertado: das despretensiosas brincadeiras ao rápido progresso em Vancouver

Após os primeiros anos em solo canadense, Davies se mudou para a Escola Saint Nicholas. Aos poucos, mesmo na fase escolar, o então adolescente começava a ser reconhecido justamente por ser diferenciado e ter esse potencial destacado por seus superiores na instituição estudantil. Foi apenas nesse período que o futebol se tornou algo maior que diversão.

“Para ser honesto, eu estava apenas tentando jogar por diversão, manter-me ativo e ficar longe de problemas. Eu não achava que era muito bom, jogava apenas porque gostava de jogar com meus amigos. Então, quando comecei a jogar futebol mais organizado, pais, treinadores e outros companheiros de equipe me diziam para continuar e que eu podia me tornar algo. Então eu comecei a acreditar nisso. Foi isso que me fez querer me tornar profissional. Foi quando comecei a treinar duro para me tornar um profissional”, falou Davies.

Aos 14 anos, Alphonso Davies foi matriculado no programa de residências do Vancouver Whitecaps. Como esperado, o progresso foi rápido. Em questão de poucos meses, foi colocado no time principal e quebrou escritas. Davies foi o primeiro jogador nascido a partir de 2000 a jogar uma partida oficial na Major League Soccer (MLS), com 15 anos, oito meses e 15 dias.

“Quando ele chegou, certamente era um prospecto. Eu não tinha certeza de que poderia chegar naquele ponto e disse que ele seria capaz de fazer algo realmente especial. Para mim, ele é um pouco de anomalia. Quando ele chegou, ele fazia parte do Sub-16 e em poucos meses foi ao Sub-18, e depois do Whitecaps 2 para o time principal. Isso é muito raro", pontuou o presidente do Vancouver Whitecaps, Bob Lenarduzzi.
Com tanto talento desempenhado no clube, era natural que as convocações à Seleção do Canadá viessem. E aconteceu desde as categorias de base. Há pouco mais de um ano, em junho de 2017, Davies estreou na categoria principal, no jogo entre Canadá x Curaçao. Com 16 anos de idade, foi o primeiro jogador nascido a partir de 2000 a marcar em um grande torneio internacional — contra a Guiana Francesa, pela Copa Ouro. Além disso, é o atleta mais jovem da história do futebol canadense a balançar as redes.

“Esse foi um ótimo momento para a família. Fico feliz que consegui. Vai significar muito, representar o país em que vivi a maior parte da minha vida. Ter o emblema canadense no peito vai significar muito para mim”, expressou  Alphonso Davies.

Davies e a importância para a Copa do Mundo 2026

Pouco antes da Copa do Mundo 2018 começar, foi definido qual seria o local do evento em 2026. Em evento realizado na sede da Fifa, uma tripla candidatura entre Canadá-Estados Unidos-México foi escolhida. Para explicar que era necessária a união em épocas de divisão e mostrar que os três países tinham totais condições de realizar historicamente o maior evento do futebol, Alphonso Davies proferiu um discurso interessante, onde falou como o acolhimento do Canadá para si mesmo e seus familiares foi importante para sua sobrevivência, após viver em condições complicadas em dois países africanos.
“Eu não sei se quem acompanhou em casa pôde ver, mas eles mostraram as fotos dele com cinco anos de idade, vindo para o Canadá. Foi muito convincente, inspirador e emotivo. Era a pessoa perfeita para começar. É o objetivo da proposta  - ser unido”, afirmou  Peter Montopoli, secretário-geral da Canada Soccer.

Apesar de adquirir relativo status de herói por sua trajetória de vida diferente dos demais ao seu redor, Davies mantém os pés no chão. Ele não se lembra do período que viveu no campo de refugiados em Gana e só sabe da história que seus pais contaram tanto em Gana quanto na Libéria. Mas certamente é grato pela oportunidade recebida do Canadá de ter um panorama de vida distinto de uma geração envolvida em conflitos armados.

O contrato com o Bayern de Munique foi assinado no fim de julho e Davies se junta ao time bávaro apenas em janeiro de 2019, em um acordo que vigora por cinco anos. O futebol é um jogo, mas não é só isso. Muda vidas. É grandeza humana.

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