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Lugar de mulher é jogando bola! A experiência em um jogo da Bundesliga feminina

Por Vitor Rawet (@vitor_rawet), do Chucrute FC*

Na última quarta-feira, tive a maravilhosa oportunidade de assistir a um jogo da Frauen-Bundesliga, o campeonato alemão de futebol feminino. A partida entre SGW Essen e Wolfsburg teve lugar no Stadion Essen, na cidade com o mesmo nome, localizada no oeste do país. O estádio com capacidade para 20.650 pessoas também abriga os jogos do Rot-Weiss Essen, time masculino que hoje disputa a quarta divisão, mas que já teve seus dias de glória na década de 50, quando chegou a ser campeão nacional.

Antes de entrar na partida propriamente dita, vale contextualizar como funciona a Bundesliga feminina e o futebol feminino no país. A liga alemã é disputada desde a temporada 90/91 e conta com doze clubes, com o campeão e o vice garantindo vaga na Champions League do ano seguinte. Entre as mulheres, o atual campeão, assim como no masculino, é o Bayern de Munique. Porém, o Rekordmeister é o FFC Frankfurt, com sete conquistas.

A primeira impressão de que 7x1 foi pouco aparece quando se pega a programação da TV aberta e vê que um jogo pode ser visto ao vivo. Se o jogo do seu time não for o escolhido da semana, sem problemas: basta ir no site da DFB - a federação alemã - e acompanhar por lá. Além disso, a Allianz patrocina o campeonato, tendo inclusive os naming rights do torneio.

A partida

Para comprar um ingresso para o jogo, não existem grandes dificuldades. Se quiser comprar antecipadamente, basta visitar o site do SGS Essen e realizar a compra. O preço normal é de $8 euros para adultos e apenas $2 euros para estudantes (válido apenas para estudantes de escola.

Universitários não tem preço reduzido por aqui. Eu consegui por sorte pagar apenas 2 euros, já que a universidade em que curso meu mestrado tem uma entidade que promove eventos e consegue descontos quando compra em grupo). Quem preferir comprar na hora da partida, também pode pelo mesmo preço comprado on-line. Os mais fanáticos podem pagar $75 euros ($50 para estudante) e assistir a todas as 11 partidas da equipe em casa.

O estádio fica afastado do centro da cidade, mas nada que uma linha de trem e algumas outras linhas de ônibus não possam chegar. Para quem vai de carro, o estacionamento é grande o suficiente para poder estacionar dentro do estádio. Eu que moro em Duisburg, cidade a 20 km de Essen, levei cerca 40 minutos considerando o tempo total, utilizando o trem. Como sou estudante, não preciso pagar pelo transporte na região em que estudo. Mas mesmo que não fosse assim, o ingresso me daria direito a pegar o trem sem custos para chegar ao estádio. Isso acontece também nos jogos dos grandes times no futebol masculino. Ao desembarcar da estação de trem, é necessária uma caminhada de cerca de 10 minutos até o estádio.

Chego aos arredores do estádio por volta das 18h, uma hora antes da partida, com intenção de poder ver a atmosfera pré-jogo. O movimento começa baixo, mas já existe uma pequena concentração de pessoas próxima as entradas. Vejo as crianças na que iriam entrar em campo com as jogadoras brincando do lado de fora do estádio já vestidas a caráter para a entrada no gramado. Algumas até trocam figurinhas do álbum da Eurocopa. Dou uma volta no estádio e consigo ver do portão algumas jogadoras do SGS Essen aquecendo. Aos poucos torcedores de todas as idades vão chegando, comprando os seus ingressos e entrando no estádio. Em alguns momentos forma-se uma pequena fila para se comprar os ingressos. Até mesmo a torcida visitante marca presença e uma ou outra camisa verde do Wolfsburg é vista.

Às 18h 40min, encontro com a pessoa da universidade que seria responsável por entregar o meu ingresso. Recebo meu ingresso junto com um folheto apresentando os dois times. Quando estava entrando no interior do estádio, fui perguntado por um segurança se eu tinha alguma garrafa comigo dentro da mochila. Ao responder positivamente, disse que eu teria de jogá-la fora. Uma carinha triste e a garantia (cumprida) de que eu não abriria a garrafa foi suficiente para não perder o delicioso Seven Up que lá estava.

Finalmente eu estava dentro do estádio. O belo dia de sol que o horário de verão europeu ainda me permitia desfrutar anunciava uma partida agradável que estava por vir (se estivesse chovendo, a cobertura asseguraria que eu estaria seco). Mesmo os 14 graus da primavera alemã não me desanimavam. O que de certa maneira me deixou um pouco triste foi ver que só um setor da arquibancada era ocupado pela torcida. Os outros três não foram sequer abertos. Fazendo uma estimativa, o público total não passou de 2 mil pessoas. Apesar do futebol feminino por aqui ser mais valorizado quando comparado ao praticado no Brasil, ainda há muito o que melhorar.

Antes de o jogo começar, ainda tenho um tempo de andar um pouco pelas arquibancadas, enquanto o locutor anunciava o nome das jogadoras. Reparei que a imprensa não tinha um lugar fechado para si. Ao invés disso, ficava em uma cadeira normal com uma mesa a frente para trabalhar. Passei rápido por um moderno restaurante também. Como no ingresso não tinha lugar fixo, decidi ficar perto do campo para sentir melhor a energia do jogo, apesar da visão nos lugares de cima ser melhor.

No momento em que as mulheres entraram em campo e se perfilaram junto com o trio de arbitragem também formado por mulheres, vi que o SGS Essen, mesmo tendo só time feminino, era patrocinado pelo Sparkasse (A “Caixa Econômica” alemã). Os lobos – e por que não dizer as lobas? - do Wolfsburg têm o patrocínio da Volkswagen, assim como o time masculino. Importante dizer que o time visitante é o atual campeão da copa da Alemanha e da Uefa Champions League feminina, além de estar novamente na semifinal do torneio nesta temporada. Além disso, o jogo conta com jogadoras da seleção alemã, como a zagueira Sara Doorson no SGS Essen e a meio-de-campo Isabel Kerschowski no Wolfsburg.

Quando o jogo começa, fico com um olho no jogo e outro em uma ótima conversa com uma colega da universidade que também atua como juíza em jogos da Bundesligafeminina. Ela me conta que quando o Rot-Weiss Essen joga no estádio, as arquibancadas ficam lotadas. Lamento quando a ouço dizer que várias das jogadoras do time de Essen tem no futebol apenas a sua segunda profissão para complementar a renda. Ela diz que também recebe uma pequena quantia pelos jogos que apita.
Perto do lugar que estou, ouço incessantemente um pequeno grupo de crianças a beira do gramado berrando “Essen! Essen!”. Consigo ouvir também uns cinco torcedores do Wolfsburg apoiando o seu time, sem serem incomodados por apoiarem o time visitante. Um pouco mais longe, no alto das arquibancadas, uns 10 torcedores na casa dos 25 anos cantam e também usam instrumentos de bateria para apoiarem as locais.

Nos poucos momentos em que SGS Essen chega perto de fazer o gol, a torcida se anima e canta. Porém, quando as campeãs europeias abrem o placar com Ramona Bachmann, a torcida apesar de lamentar, aplaude o time visitante. Quando comparo com uma vez que fui a um jogo no maracanã e na preliminar acontecia um jogo feminino, as coisas eram bem diferentes. No Brasil, a cada gol ou lance ruim protagonizado pelas mulheres, a torcida “elogiava” ou xingava de uma maneira que o leitor podeimaginar como. Me deu um certo alívio estar do outro lado do oceano. Ao menos nesse quesito, por aqui o machismo passa longe.

As meninas vão para o vestiário ainda com um placar de 1x0 e ao começar o segundo tempo, noto que alguns preferem ver o jogo em pé no alto das tribunas, mesmo com muitos lugares livres. Em campo, mais dois gols do Wolfsburg em contra-ataques com Isabel Kerschowski e Alexandra Popp acabaram com qualquer possibilidade de reação do SGS Essen. Foi divertido o momento em que um torcedor começou a berrar sozinho reclamando da arbitragem e o estádio inteiro ficou olhando para ele. Sim, os famosos “loucos de estádio” também estão presentes por aqui.

Quando começaram a ocorrer as substituições, pude perceber que não havia quarta árbitra. Quem realizava as substituições era a bandeirinha, que as vezes corria da linha de fundo para efetuá-las. Ainda deu tempo de comemorar um gol do Essen já nos acréscimos do jogo com Kirsten Nesse para fechar o placar em 3x1 a favor do Wolfsburg, que ocupa a vice-liderança e segue na caça ao líder Bayern. O SGS Essen está na sexta posição.

Logo que o jogo acabou, a saída do estádio foi feita de maneira bem tranquila e sem nenhum problema. Já com a lua brilhando na noite pude voltar para casa feliz com o que tinha vivenciado. Mais do que nunca, lugar de mulher é jogando bola! E o meu, ao menos nesse momento, foi o de sentar na arquibancada e aplaudi-las, por conseguirem sobreviver a uma das profissões mais machistas da atualidade.

*Vitor Rawet mora na Alemanha e colaborou com o texto para o Alemanha FC

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