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Confira, na íntegra, a polêmica nota assinada por Mesut Özil

Por Vitor Rawet

No último domingo, Mesut Özil decidiu se aposentar da seleção alemã através de uma longa carta que inclui acusações de racismo e fortes críticas ao presidente da DFB (Federação Alemã), Reinhard Grindel. Abaixo você confere a carta na íntegra, em tradução livre.

Para contextualizar, é importante dizer que boa parte da carta envolve um acontecimento ocorrido a um mês do início da Copa do Mundo. Özil e Gündogan, jogadores alemães com ascendência turca, se reuniram e tiraram uma foto com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

O fato não foi bem digerido pela imprensa e um bom percentual da sociedade alemã, com parte da opinião pública pedindo até mesmo que os dois jogadores fossem cortados do grupo que iria à Copa do Mundo. Outros já enxergavam o racismo desde aquele momento. Reinhard Grindel, por sua vez, disse que aquele ato não estava de acordo com os princípios da DFB.


Gündogan se justificou dizendo que não podia "negar um encontro com o presidente da pátria dos seus pais", enquanto Özil permaneceu em silêncio e foi criticado por se calar. Pois bem, isso até ontem, quando divulgou essa carta por meio de seu Instagram.

Parte 1 – O encontro com o Presidente Erdogan



As duas últimas semanas me deram tempo para refletir e tempo para pensar sobre os acontecimentos dos últimos meses. Consequentemente, quero compartilhar meus pensamentos e sentimentos sobre o que aconteceu.

Como muitas pessoas, minha ancestralidade remonta a mais de um país. Enquanto eu cresci na Alemanha, minha origem familiar tem suas raízes firmemente baseadas na Turquia. Eu tenho dois corações, um alemão e um turco. Durante minha infância, minha mãe me ensinou a ser sempre respeitoso e nunca esquecer de onde eu vim, e estes ainda são valores que considero até hoje.

Em maio, conheci o presidente Erdogan em Londres, durante um evento beneficente e educativo. Nós nos encontramos pela primeira vez em 2010 depois que ele e Angela Merkel (NOTA: Angela Merkel é atual chanceler alemã) assistiram à partida entre Alemanha e Turquia em Berlim. Desde então, nossos caminhos se cruzaram várias vezes ao redor do mundo. Estou ciente de que a nossa imagem causou uma enorme repercussão na mídia alemã e embora algumas pessoas possam me acusar de mentir ou de ser desonesto, a foto que tiramos não tinha intenções políticas.

Como eu disse, minha mãe nunca me deixou perder de vista minha ancestralidade, herança e tradições familiares. Para mim, tirar uma foto com o presidente Erdogan não era sobre política ou eleições, era sobre eu respeitar o cargo mais alto do país da minha família. Meu trabalho é como jogador de futebol e não como político e nosso encontro não foi um endosso de nenhuma política. Na verdade, falamos sobre o mesmo assunto que discutimos toda vez que nos encontramos - o futebol - já que ele também era um jogador em sua juventude.

Embora a mídia alemã tenha retratado algo diferente, a verdade é que não se encontrar com o presidente representaria um desrespeito às raízes de meus ancestrais, que sei que ficariam orgulhosos de onde estou hoje. Para mim, não importava quem era o presidente, importava que fosse o presidente. Ter respeito pelo cargo político é uma visão que tenho certeza de que tanto a rainha quanto a primeira-ministra Theresa May compartilham quando também receberam Erdogan em Londres (NOTA: Na mesma viagem em que tirou a foto com Özil e Gundogan, o presidente turco Erdogan se reuniu com as líderes de governo do Reino Unido). Quer tenha sido o presidente turco ou o alemão, minhas ações não teriam sido diferentes.

Eu entendo que isso pode ser difícil de entender, já que na maioria das culturas o líder político não pode ser considerado como separado da pessoa. Mas nesse caso é diferente. Seja qual fosse o resultado da última eleição, ou da eleição anterior, eu ainda teria tirado a foto.

Parte 2 – Imprensa e patrocinadores


Eu sei que sou um jogador de futebol que jogou indiscutivelmente nas três ligas mais difíceis do mundo. Tive a sorte de receber um grande apoio dos meus companheiros de equipe e da comissão técnica enquanto jogava na Bundesliga, La Liga e Premier League. E além disso, ao longo da minha carreira, aprendi a lidar com a imprensa.

Muita gente fala sobre minhas performances - muitos aplaudem e muitos criticam. Se um jornal ou comentarista encontra falhas em uma partida em que atuo, eu posso aceitar isso - eu não sou um jogador de futebol perfeito e isso muitas vezes me motiva a trabalhar e treinar mais. Mas o que eu não posso aceitar, são os meios de comunicação alemães repetidamente usando minha descendência dupla e uma simples foto para justificar uma Copa do Mundo ruim de toda uma equipe.

Certos jornais alemães estão usando meus antecedentes e fotos com o presidente Erdogan como propaganda de direita para promover sua causa política. Por que mais eles usariam fotos e manchetes com meu nome sendo usado como uma explicação direta para a derrota na Rússia?

Eles não criticaram minhas performances. Eles não criticaram as performances da equipe, eles apenas criticaram minha ascendência turca e o respeito pela minha criação. Isso cruza uma linha pessoal que nunca deveria ser ultrapassada, pois os jornais tentam colocar a nação alemã contra mim.

O que também acho decepcionante é o duplo padrão que a mídia tem. Lothar Matthaus (um capitão honorário da seleção alemã) se encontrou com outro líder mundial há alguns dias e quase não recebeu críticas da mídia (NOTA: No início do mês, Matthäus se reuniu com o presidente russo Vladimir Putin). Apesar de seu papel na DFB, eles não pediram a ele para explicar publicamente suas ações e ele continua a representar os jogadores da Alemanha sem qualquer repreensão. Se a imprensa achava que eu deveria ter ficado de fora da equipe da Copa do Mundo, então certamente Matthäus também deveria deixar de ser capitão honorário? Minha herança turca me torna um alvo mais valioso?

Sempre achei que uma 'parceria' significa apoio, tanto nos bons momentos como também em situações mais difíceis. Recentemente, planejei visitar minha antiga escola ‘Berger-Feld’ em Gelsenkirchen, na Alemanha, junto com dois de meus parceiros de caridade. Eu financiei um projeto por um ano onde crianças imigrantes, crianças de famílias pobres e outras crianças podiam jogar futebol juntos e aprender regras sociais para a vida.

No entanto, dias antes de estarmos agendados para ir à escola, eu fui abandonado pelos meus chamados 'parceiros', que não queriam mais trabalhar comigo naquele momento. Para acrescentar a isso, a escola disse à minha assessoria que eles não queriam mais que eu estivesse lá naquele momento, pois ‘temiam a imprensa’ devido a minha foto com o presidente Erdogan, especialmente com o ‘partido de direita em Gelsenkirchen em ascensão’. Com toda a honestidade, isso realmente machuca. Apesar de ser um estudante de lá quando eu era mais jovem, fui levado a me sentir como indesejado e indigno do seu tempo.

Além disso, fui repudiado por outro patrocinador. Como eles também eram patrocinadores da DFB, pediram para eu participar de vídeos promocionais para a Copa do Mundo. No entanto, após minha foto com o Presidente Erdogan, eles me retiraram das campanhas e cancelaram todas as atividades promocionais que estavam programadas. Para eles, já não era bom serem vistos em minha companhia e trataram  a situação como ‘gerenciamento de crise’.

Isso tudo é irônico porque um ministério alemão declarou que os produtos desse patrocinador têm dispositivos de software ilegais e não autorizados, o que coloca os clientes em risco. Centenas de milhares de seus produtos estão sofrendo “recall” (NOTA: Recentemente, a Mercedez Benz, empresa que tem Özil como embaixador e também patrocina a DFB”, teve cerca de 800 mil carros chamados para recall pelo ministério dos transportes alemão por conta de problemas nos dispositivos de software). Enquanto eu estava sendo criticado e solicitado a justificar minhas ações perante a DFB, não havia tal pedido de explicação oficial e pública para este patrocinador da DFB. Por quê? Estou certo em pensar que isso é pior do que uma foto com o presidente do país da minha família? O que a DFB tem a dizer sobre tudo isso?

Como eu disse antes, 'parceiros' devem estar com você em qualquer situação. Adidas, Beats e Big Shoe têm sido extremamente leais e é maravilhoso trabalhar com eles neste momento. Eles superam o absurdo criado pela imprensa e mídia alemãs, e continuamos a realizar nossos projetos de uma maneira profissional que eu realmente gosto de fazer parte.

Durante a Copa do Mundo, trabalhei com a Big Shoe e ajudei a fazer cirurgias que mudaram a  vida de 23 crianças na Rússia, o que também fiz anteriormente no Brasil e na África. Isso para mim é a coisa mais importante que faço como jogador de futebol, ainda que os jornais não encontrem espaço para aumentar a conscientização sobre esse tipo de ação.

Para eles, eu ser vaiado ou tirar uma foto com um presidente é mais significante do que ajudar crianças a fazer cirurgias em todo o mundo. Eles também têm uma plataforma para aumentar a conscientização e a arrecadação de fundos, mas optam por não fazê-lo.

Parte 3 – DFB


Indiscutivelmente, a questão que mais me frustrou nos últimos dois meses foi o mau trato da DFB e em particular, o Presidente da DFB, Reinhard Grindel. Depois da minha foto com o presidente Erdogan, Joachim Löw me pediu para interromper minhas férias e ir a Berlim e fazer uma declaração conjunta para encerrar toda a conversa e esclarecer tudo.

Embora eu tentasse explicar a Grindel minha ascendência, ancestralidade e, portanto, as razões por trás da foto, ele estava muito mais interessado em falar sobre suas próprias opiniões políticas e menosprezar minha opinião.

Enquanto suas ações foram paternalistas, chegamos a concordar que a melhor coisa a fazer era se concentrar no futebol e na Copa do Mundo que estava por vir. É por isso que não compareci à conferência de imprensa promovida pela DFB durante os preparativos da Copa do Mundo. Eu sabia que os jornalistas discutiriam política e não futebol e simplesmente me atacariam, apesar de toda a questão ter sido dada como resolvida por Oliver Bierhoff em uma entrevista na TV que ele fez antes do jogo da Arábia Saudita em Leverkusen (NOTA: Amistoso pré-copa disputado três semanas depois da foto tirada com Erdogan).

Durante esse período, também me encontrei com o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier. Ao contrário de Grindel, o presidente Steinmeier foi profissional e na verdade estava interessado no que eu tinha a dizer sobre minha família, minha herança e minhas decisões. Lembro-me de que a reunião foi apenas entre mim, Ilkay (NOTA: Ilkay Gundogan) e o presidente Steinmeier, enquanto Grindel ficou chateado por não poder participar para impulsionar sua própria agenda política.
Eu acordei com o presidente Steinmeier que ele iria divulgar uma declaração conjunta sobre o assunto, em outra tentativa de avançar e focar no futebol. Mas Grindel estava aborrecido por não fazer parte da equipe que publicaria a primeira declaração, irritado com o fato de a assessoria de Steinmeier ter assumido a liderança neste assunto.

Desde o fim da Copa do Mundo, Grindel vem sofrendo muita pressão sobre suas decisões antes do início do torneio, e com razão. Recentemente, ele disse publicamente que eu deveria mais uma vez explicar minhas ações e me culpou pelos resultados ruins da equipe na Rússia, apesar de ter me dito que esse assunto tinha acabado em Berlim. Eu estou falando agora não por Grindel, mas porque eu quero. Não aceitarei mais ser um bode expiatório por sua incompetência e incapacidade de fazer seu trabalho adequadamente. Eu sei que ele me queria fora da equipe após a foto, e divulgou sua opinião no Twitter, sem qualquer reflexão ou consulta, mas Joachim Löw e Oliver Bierhoff se levantaram em meu favor e me apoiaram.

Aos olhos de Grindel e seus partidários, sou alemão quando vencemos, mas sou imigrante quando perdemos. Isso porque, apesar de pagar impostos na Alemanha, doar instalações para escolas alemãs e vencer a Copa do Mundo com a Alemanha em 2014, ainda não sou aceito na sociedade. Eu sou tratado como 'diferente'. Recebi o 'Bambi Award' (NOTA: Prêmio inicialmente concedido aos melhores da TV e música alemã, mas que desde 2009 concede também prêmio referente à integração na sociedade) em 2010 como um exemplo de integração bem-sucedida à sociedade alemã, recebi um 'Silver Laurel Leaf' (NOTA: Maior prêmio concedido no mundo do esporte alemão) em 2014 da República Federal da Alemanha e fui um 'german football ambassador' (NOTA: “embaixador do futebol alemão”) em 2015. Mas obviamente, eu não sou alemão.. .?

Existem critérios para ser totalmente alemão que eu não me encaixo? Meu amigo Lukas Podolski e Miroslav Klose nunca são referidos como polonês-alemães, então por que eu sou turco-alemão? É porque é a Turquia? É porque sou muçulmano? Eu acho que aqui é colocada uma questão importante. Quando se refere como alemão-turco, já se distingue pessoas que têm família de mais de um país. Eu nasci e fui educado na Alemanha, então por que as pessoas não aceitam que eu sou alemão?

As opiniões de Grindel também podem ser encontradas em outros lugares. Fui chamado por Bernd Holzhauer (um político alemão) de "bode filho da p***" por causa de minha foto com o presidente Erdogan e meu histórico turco.(NOTA: Bernd Holzauer era uma político do SPD - em tese um partido com tendências mais à esquerda moderada. Depois do ocorrido, o então deputado pediu desculpas e renunciou ao cargo) Além disso, Werner Steer (chefe do teatro alemão) disse-me para " ir à Anatólia", um lugar na Turquia onde muitos imigrantes estão baseados.

Como eu disse antes, criticar e abusar de mim por causa da ascendência familiar é uma linha vergonhosa de se atravessar e usar a discriminação como uma ferramenta para propaganda política é algo que deve resultar imediatamente na demissão daqueles indivíduos desrespeitosos. Essas pessoas usaram minha foto com o presidente Erdogan como uma oportunidade para expressar suas tendências racistas anteriormente ocultas e isso é perigoso para a sociedade.

Eles não são melhores do que o torcedor alemão que me disse depois do jogo contra a Suécia "Ozil, verpiss Dich Du scheiss Tiirkensau," iirkenschwein hau ab "ou em português "Ozil, vai se f****, seu turco de m****, cai fora seu porco turco"!

Eu não quero nem discutir o e-mail do ódio, ameaças através de chamadas telefônicas e comentários em mídias sociais que minha família e eu recebemos. Todos eles representam uma Alemanha do passado, uma Alemanha que não está aberta a novas culturas e uma Alemanha da qual não me orgulho. Tenho certeza de que muitos alemães orgulhosos que defendem uma sociedade aberta concordariam comigo.

Para você, Reinhard Grindel, estou desapontado, mas não surpreso com suas ações. Em 2004, quando você era um membro do Parlamento, você afirmou que "o multiculturalismo é na realidade um mito [e] uma mentira permanente", enquanto você votou contra a lei para a dupla nacionalidade e contra punições por suborno, além de dizer que a cultura islâmica tornou-se muito impregnada em muitas cidades alemãs. Isso é imperdoável e não será esquecido (NOTA: Reinhard Grindel, atual presidente da DFB, é membro do CDU, mesmo partido da chanceler Angela Merkel e foi deputado entre 2002 e 2016).

O tratamento que recebi da DFB  e muitos outros me faz não querer mais usar a camisa da seleção alemã. Sinto-me indesejado e penso que o que tenho conseguido desde a minha estreia internacional em 2009 foi esquecido. As pessoas com antecedentes racialmente discriminatórios não devem poder trabalhar na  federação de futebol do mundo que tem mais jogadores de famílias de ascendência dupla. Atitudes como as deles simplesmente não refletem os jogadores que supostamente representam.

É com um coração pesado e depois de muita consideração que, devido aos recentes acontecimentos, deixarei de jogar pela Alemanha a nível internacional, ao mesmo tempo que tenho este sentimento de racismo e desrespeito. Eu costumava usar a camisa alemã com tanto orgulho e emoção, mas agora não o faço. Esta decisão foi extremamente difícil de tomar porque sempre dei tudo para os meus colegas de equipe, à comissão técnica e às boas pessoas da Alemanha. Mas quando oficiais de alto escalão da DFB me tratam como eles trataram, desrespeitam minhas raízes turcas e me transformam em propaganda política, então basta. Não é por isso que jogo futebol, então não vou me sentar e não fazer nada a respeito.

O racismo jamais deve ser aceito.

Mesut Özil

Um comentário:

  1. Álvaro Villa Campo24 de julho de 2018 12:47

    Falou tudo, é triste ver a Alemanha retroceder no tempo, e viver novamente esse tipo de preconceito, frequento a igreja Luterana aqui no Brasil e a maior alegria é quando um membro brasileiro ou de outra nacionalidade, participa dos cultos e eventos da igreja, onde comumente lidamos com sobrenomes alemães, agora assistir a esse episódio de um campeão mundial que defendeu a Mannschaft durante tantos anos, ser tratado desta maneira é surreal, como declarou Bellerín seu companheiro de clube. Se porventura o presidente da DFB repudia tanto a miscigenação, deveria dividir a quarta estrela com: Gana, Tunísia, Polônia e Turquia, respectivamente os países de origem de Boateng, Khedira, Klose, Podolski e Özil, pois eles fizeram parte do elenco campeão do mundo em 2014 no Brasil, inclusive sendo fundamentais na conquista do título. Portanto este retrocesso somente trará malefícios para seleção alemã, que ao invés de avançar, certamente irá retroceder. Parabéns özil por sua atitude, fatos como esse não retratam a Alemanha como disse a chanceler Angela Merkel.

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